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A formação de uma mente obesa

 

A obesidade têm se tornado um dos grandes males nos últimos anos, baseada em um estilo de vida e hábitos comportamentais promovidos por uma cultura de consumo exacerbado, alimentação fast-food e sedentarismo. 

Armando Ribeiro das Neves Neto, autor do artigo intitulado “Você tem fome de Quê?” da Revista Psique do mês de Maio de 2013, relata que apesar das relações genéticas perante a obesidade, alguns estudiosos refletem sobre o papel do estresse pré-natal no aumento do risco de obesidade na infância. Ele descreve sobre os relatos do “Inverno da Fome na Holanda”, no final da Segunda Guerra Mundial, onde historiadores contam que os nazistas, ao se verem pressionados e irritados pela ajuda dos holandeses aos aliados que vinham libertá-los, cortaram todas as linhas de abastecimento de alimentos a eles. Crianças, adultos e gestantes passaram uma estação inteira com fome, comendo muito pouco por dia. 

O resultado desta situação foi que décadas após, uma geração de crianças com alteração do metabolismo e com riscos elevados para a síndrome metabólica (obesidade, hipertensão arterial, hiperglicemia, aumento dos triglicerídeos, dislipidemia). Isto nos permite observar a estreita relação das situações traumáticas vividas por nossos antepassados, que acabam por acarretar fragilidades para nossas vidas. Perigos de falta de dinheiro ou de medo de faltar comida estão muitas vezes relacionadas às situações de alterações como relatado. 

Segundo o Armando durante a gestação o feto reúne informações sobre o meio externo, moldando seu funcionamento para o resto da vida. Uma gestação com uma nutrição não adequada poderia consolidar fragilidades no metabolismo do feto, provocando um aumento de glicocorticoides – hormônios do estresse, “ensinando” ao feto que o mundo externo é estressante.

O psicólogo norte-americano Harry Harlow, utilizando de macacos rhesus, na Universidade de Wsconsin-Madison, realizou um estudo buscando a relação do estresse pós-natal do desenvolvimento de um bebe macaco. Ele utilizou do isolamento social, privando os bebês do contato de suas mães, isto provocou alterações deletérias cognitivas, afetivas e comportamentais. O médico René Spitz observou em crianças órfãs da segunda guerra mundial, perda de interesse pelo meio circundante, apatia, diminuição do tônus muscular, alteração no comportamento alimentar, e em alguns casos de extremos de privação materna, levaram ao óbito, não pela falta de cuidado médico ou de alimentação e, sim, pela falta da troca de afetiva e do contato físico ou visual, uma vez que as crianças permaneciam um tempo considerável em berços e sem contato com adultos ou outras crianças. Isto demonstra a importância do afeto no bem estar da criança.

Em um estudo publicado pela revista Pediatrics, com a participação de 2119 pais e cuidadores de crianças na faixa de 3 a 17 anos, mostrou que pais estressados tendem a servir mais comidas rápidas (fast-food) aos filhos e que estes tinham mais riscos de desenvolver sobre peso ou obesidade. Segundo a pesquisadora Dra. Elizabeth Prout-Parks, os pais comprariam e preparariam o alimento baseado em seus fatores emocionais e níveis de estresse. Alimentos rápidos ricos em calorias, açúcares e gorduras e principalmente de fácil preparo se tornam escolhas fáceis, criando um hábito alimentar destruidor, ensinando as crianças a buscar alimentos não apenas como fonte de saciar a fome, mas também para relaxamento e lidar com frustrações. 

Arnaldo Ribeiro também coloca em possibilidade o excesso de açúcares, gorduras trans e outros aditivos alimentares como fatores causais das gerações de crianças hiperativas, desatentas ou desvitalizadas e sedentárias. Colocando em discussão que talvez o sucesso dos alimentos industrializados seja uma substituição para a falta de tempo e dedicação dos pais cansados pelas longas jornadas de trabalho, cronicamente estressados, e também vítimas de uma sociedade que alimenta frustrações e expectativas ilusórias. 

Segundo Clarissa Silbiger Ollitta em seu artigo “Questão de Peso” publicado pela revista Psique, inúmeras pesquisas comprovam que crianças alimentadas exclusivamente em berços, deprimem profundamente, quando não falecem, se não são tocadas, e acalentadas. Clarissa diz: “A criança precisa se alimentar integralmente, pelo contato, pela pele, pelo afeto, pelo alimento e o adulto precisa ser e se sentir um bom provedor”. Isto tem sido muito dificultado atualmente, pela correria do dia a dia, onde os pais não têm mais tempo para prover o alimento do afeto, da atenção a seus filhos, onde ao ajudar com a lição de casa, ao mesmo tempo estão lavando a louça, ou assistindo televisão, ao brincar, estão mexendo no computador ao mesmo tempo, por que “eu não posso perder tempo”, mas acabamos perdendo o tempo da infância de nossos filhos, não percebendo quão rápido eles crescem e o quanto precisavam de nossa atenção integral em alguns momentos, sem distrações. E para que parem de nos atrapalhar em nossos afazeres compramos muito salgadinho e refrigerante, para que fiquem na frente da televisão.

Pesquisadores do Departamento de Pediatria da Unifesp, após analisar propagandas de televisão dirigidas ao público infantil, chegaram a conclusão de que para cada dez minutos de exibição, pelo menos um é voltado para o consumo de alimentos prejudiciais, aqueles que tem alto teor de gordura saturada e açúcar refinado, relata Roberta de Medeiros em seu artigo Obesidade Infantil e Televisão. Nos Estados Unidos, uma pesquisa revelou que 26% dos adolescentes entre 8 e 16 anos de idade ficam, no mínimo, quatro horas em frente a TV todos os dias, sendo que 30 segundos de anúncio já bastam para exercer influencia sobre os jovens, segundo a Organização mundial da saúde.

Na sociedade consumista em que vivemos, para um tênis de marca, é tão importante quanto tomar um refrigerante no recreio do colégio. Qual é o pai que não quer dar ao filho tudo do bom e do melhor. O poder de compra torna as crianças superiores no padrão social, e mostrar isto faz com que elas se sintam inclusas aos grupos. Dar um biscoito ao filho permite a ele manter um patamar de igualdade aos outros que comem biscoito e segundo Clarissa Sibiger, pode muitas vezes estar relacionada a uma compensação das limitações vividas pelos pais em suas infâncias, onde não havia tanto poder aquisitivo. 

No final do ano de 2012, a roteirista e diretora Estela Renner, lançou no Youtube seu documentário intitulado Muito além do peso, relatando sobre a obesidade infantil no Brasil. Mostrando uma dura realidade, onde 56% das crianças com menos de um ano, no Brasil, consomem refrigerante. O documentário tem o objetivo de alertar os pais e crianças do perigo da ingestão excessiva de açúcar e de como as empresas bombardeiam o cérebro das crianças, através do marketing na televisão, trazendo a falsa impressão de que os alimentos são saudáveis e trazem felicidade. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 33% das crianças no País são obesas ou estão com sobrepeso. 

Outro artigo interessante foi realizado em conjunto por Eduardo Lucas Andrade e João Antônio Fernandes, onde buscaram uma correlação entre a fase oral e a obesidade, quando em muitos casos ocorre a falta de disciplina perante os horários, de forma que o peito da mãe é oferecido ao ser observado a mais leve irritabilidade da criança. Para a criança o comida se torna uma recompensa pela irritabilidade, e por muitas vezes acaba permanecendo até a vida adulta. Se os pais não impõem os devidos limites, durante infância e adolescência, e a qualquer irritabilidade, dão a eles o que querem, sempre irão utilizar o artifício da birra, do choro e da irritabilidade de forma a conquistarem o que querem. Ou acabam comendo de forma exagerada como uma forma de “acalmar” a irritabilidade, o nervosismo.

O espelho é utilizado para refletir a imagem, mas ela não reflete por si só. A imagem vista depende do olhar do observador, onde recebe distorções advindas do psíquico. O ser humano que olha ao espelho não o vê refletido, mas sim o reflexo relacionado ao seu psíquico de momento, podendo distorcer aquela imagem a tornando monstruosa ou sedutora. Isto é bem observado no período pré-menstrual para algumas mulheres, quando se encontram mais sensíveis, e acabam se vendo de uma maneira totalmente distorcida, ou para aquelas pessoas que se encontram em um momento depressivo. 

Sendo assim, nosso estado emocional é extremamente importante para que nos amemos e nos sintamos bem conosco. O equilíbrio emocional trazido desde o momento gestacional e infância (pelos nossos pais e cuidadores no ambiente de criação), e a vida adulta (com a família e ambiente profissional), permite que estejamos bem, e em conjunto com o cuidado com uma alimentação adequada e atividade esportiva, permite estarmos saudáveis, com peso adequado e no controle de nossas vidas.

 

 

Dr. Ivan Bonaldo

Crefito 8/99696-F

Fisioterapeuta especialista em Microfisioterapia e Leitura Biológica